segunda-feira, julho 31, 2006

À Procura do Vento num Jardim D'Agosto


A mim, basta-me o espanto da flor que murcha quando, no mesmo ramo, outra flor expande as pétalas ao sol.


Al Berto, Cartas Inúteis

quinta-feira, julho 20, 2006

Fotografia de Kenvin Pinardy

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A noite esvazia-se.
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Todos os poemas morreram.
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Nenhuma melodia enche a tua morte.
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[FIM]

sexta-feira, julho 07, 2006

Prelúdio de um fim anunciado

Fotografia de Lilya Corneli

Vieste inesperadamente como vêm as tempestades. Em passos de inquietude na última claridade do dia, onde a solidão que em ti é se faz espera. Ausentes os olhos. Despossuídos daquele subtil momento que pesou no poema. Neles já nem as sombras amadurecem os frutos. Na tua boca revelaste-me o sabor da morte. E desceu o vazio. Lentamente desceu sobre mim o vazio que me trouxeste. Assim como a repugna de me morreres um pouco todos os dias porque não pude ver que, por detrás desses teus pequenos segredos, morria a secreta mágoa de me mentires tanto.
Deixaste em mim este lírio branco reclinando-se breve sobre a morte. Quiseste guardar o afecto no esquecimento, agora minha é só a página vazia onde escreveste o silêncio das tuas palavras. Sinto o vento. Nele ouço o teu respirar uma vez mais deitado a meu lado. Gravo-te nos dedos. Despeço-me.

quarta-feira, junho 21, 2006

Frieza da solidão enraizada na vida

Fotografia de Lilya Corneli

Encosto a boca aos dias. Sinto-lhes a transparência, abatendo-se, lentamente. No lento cansaço da silhueta. E ela é afinal este eu reflectido, quando uno com a carne impregnada de lembranças. Encaro-a e deixo que aquele reflexo invada o meu campo de visão. Olho-me na ausência de ti. E é naquela mutez, feita de fragmentos de um passado perdido no tempo, que pego e traço a história. Aquela que não existe. A que imagino. Que preenche o vazio que a imagem espelha. Aquela que se assoma por entre a margem dos lábios em que nos encontrámos. Tu e eu. Entre o respirar distante no tempo e o frio latejar da realidade.
Gosto-te assim. Observando-te de longe. No tempo e no espaço.
Retenho-te em mim por breves instantes. Onde sei que permaneces meu. Indivisível daquele imaginário que é só meu. Porque é quando te solto desse imaginário que te tornas real e te diluis por entre a multidão que me rodeia. Aí, não quero falar-te nem conhecer-te. Se o fizesse a tua ténue imagem esbater-se-ía junto dos demais. Quero pensar-te apenas nas respostas inexistentes, impossíveis até. Quero poder interrogar-te nas linhas do meu silêncio. Mesmo que na incerteza de nunca saber as respostas. Só assim te possibilito seres personagem da minha história.
Sabes, tenho saudades dos momentos que nunca vivemos, porque só nesses momentos te permito teres uma existência inesgotável.

terça-feira, junho 06, 2006

Estranhos sem nenhum segredo

Fotografia de Janosch Simon

Longe do dia o meu corpo abre-se à urgência da noite. É nela que tu te moves e levas parte da minha vida contigo. E eu fico olhando-vos, neste jeito meu de oscilar entre o perigo e a segurança. É aí, nesse espaço de claridade vadia que se acende a nossa nudez. Os dedos percorrem a pele tacteando a chama incansável desta paixão clandestina. No latejar da tua boca divago este desejo de te ter. E fosse o desejo a eterna morada do poema, todas as imagens me habitariam os lábios.

quinta-feira, maio 25, 2006

Destruo as incertezas para ficar a sós contigo

Fotografia de Ewa Brzozowska

Hoje componho o passado que se ordena na folha e deixa de fazer sentido. E se te prendo a cada ponto final, em que o meu silêncio se perde, não é para que o escutes.

De pouco valem os caminhos quando vivemos sem sentido. Se me agarro a esse teu olhar inquieto não é por essa incompreensão que a luz não toca. É porque de uma vez por todas me queria dar por vencida. Talvez assim te pertencesse.

Hoje soletro cada palavra. E é de ti que falo.

terça-feira, maio 09, 2006

Quando a tristeza vem dormir junto de mim

Fotografia de Emil Shildt

Com o vento assobiando leve no sal do cabelo, perco-me rente às arestas maceradas de cada imagem que ficou. Num espanto de luz, sufoco-me na ornamentação exacta de cada recordação. E, nesta ordem precisa, tudo escurece a pouco e pouco. Com o tempo, nem o amplo sentir deixará um rasto de luz para me esconder. E é aí. Distancio-me. Como sopro cindido pela dimensão do aroma rompendo de uma outra boca.
De repente, de olhos mergulhando tristes na brisa, era horizonte debruçado na precipitação do vento.


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